quarta-feira, 2 de maio de 2012

Pornografia afeta a relação?

Ilusão, vício ou apenas um pouco de diversão? Seja qual for a sua opinião, com mais de 2,5 milhões de sites disponíveis, é difícil escapar à presença da pornografia na internet. Jornalista inglês desnuda sua alma — e seu laptop — e explora o impacto que ela tem em nossas vidas amorosas

Por Stephen Armstrong
   Getty Images
QUANDO É QUE O HÁBITO DE CONSUMIR PORNOGRAFIA SE TORNA UM PROBLEMA PARA A RELAÇÃO?
Quer saber o que eu tenho em comum com Osama Bin Laden? Se os militares americanos invadissem meu computador, encontrariam pornografia no disco rígido, como no de Bin Laden. E se até o líder de um movimento que nasceu de uma revolta religiosa contra a decadência do Ocidente assiste a pornografia na internet... Então quem escapa?
Leia mais: como fazer o seu namorado melhorar no sexo oral? Blogueiro do Fale com Ele dá dicas picantes
Segundo o professor Simon Louis Lajeunesse, da Universidade de Montreal, no Canadá, a resposta é: ninguém. Em 2009, ele iniciou um estudo sobre os diferentes hábitos sexuais dos homens na faixa dos 20 anos que acessavam pornografia e dos que não acessavam. Como se comportariam na cama? Tratariam as mulheres de maneira diferente? Viam a si mesmos de forma distinta? No meio da pesquisa, o professor encontrou um obstáculo: “Não havia um rapaz na faixa dos 20 que nunca tivesse consumido pornografia”, disse. “É que, com a internet, faz pelo menos dez anos que os homens têm conteúdo erótico ao alcance do mouse.”
20% dos homens admitem assistir
a videos pornô no trabalho**
Como homem, acho isso deprimente. Não somos pessoas ruins, mas isso nos faz parecer patéticos. É como se uma câmera de Big Brother flagrasse milhões de nós debruçados sobre seus computadores com uma caixa de lenços de papel na mão e um sorriso distorcido no rosto. Esta não pode ser a vida que realmente desejamos.
Minha amiga Sarah, uma enfermeira de 35 anos, acredita que a imaginação dos homens está se estreitando por conta desse hábito. “Parece que eles não sentem mais prazer em flertar ou nos estimular”, diz. “Todos querem fazer as mesmas posições. E meu último namorado esperava que eu dormisse para entrar na internet. Havia uma mulher de verdade na cama, mas ele preferia assistir a filmes em que mulheres desconhecidas faziam sexo com outros homens. Isso é absurdo.”
17% das mulheres dizem que são
viciadas em pornografia online*
Ironicamente, a recente aparição de sites caseiros dedicados a mostrar garotas de verdade fazendo sexo de verdade (embora haja diversas profissionais envolvidas) e de sites como o xHamster, com pornografia feita em casa e clipes piratas, ameaça levar a indústria à falência. Na rede quase ninguém precisa pagar.
Sarah é uma mulher linda, confiante e adora aventuras. Qualquer cara que prefira pornografia na internet a ela é realmente um idiota. Mas os homens são criaturas simples e somos mais ou menos dominados por nossa biologia. “Eles reagem mais a sinais visuais do que a qualquer outro ser”, diz a terapeuta sexual Paula Hall. “É por isso que a pornografia funciona tão bem para eles. Já o núcleo erótico das mulheres é bem mais complexo.”
11 anos é a idade média em que uma criança
tem seu primeiro contato com sites do gênero**
Então todos os homens são viciados em pornografia? Embora os números precisos sejam inconfiáveis em uma indústria tão envolta em vergonha e proibição, dois neurocientistas, Ogi Ogas e Sai Gaddam — autores de A Billion Wicked Thoughts (Um Bilhão de Pensamentos Maliciosos, Penguin, ainda sem tradução no Brasil) — concluíram que, em 1991, antes do nascimento da internet como a conhecemos hoje, havia cerca de 90 revistas pornô nos Estados Unidos. Hoje são mais de 2,5 milhões de sites com conteúdo adulto ao alcance de qualquer um.
Editora Globo

O ATOR MICHAEL FASSBENDER EM CENA DO FILME "SHAME", NA QUAL INTERPRÉTA UM HOMEM COM COMPULSÃO POR SEXO QUE NÃO DISPENSA VÍDEOS ERÓTICOS PELA INTERNET
Pessoalmente, minha relação com a pornografia às vezes parece um vício. Não porque eu esteja constantemente percorrendo sites em busca de alguma nova emoção obscena, mas porque já tentei abandonar esse hábito algumas vezes, depois voltei aos poucos, depois abandonei novamente, enojado. Às vezes me sinto como um bulímico de pornografia. Eu me conheço — conheço minhas fantasias: sedução, lingerie, uma venda nos olhos e dedos ou lábios percorrendo suavemente a pele. Mas, de modo geral, a pornografia me restringiu. Algumas das imagens mentais que mais aprecio foram distorcidas para se encaixar no mercado de massa.
28.258 internautas acessam sites
de sexo por segundo**
É certo que a diversão da imagem pornô não afeta meu comportamento — gosto de um bom filme de ação, mas nem por isso sou tentado a colocar uma bomba ou a sequestrar um trem. Então por que me preocupo com a pornografia? Por que temo que esse gênero esteja penetrando a minha psique e modificando fundamentalmente meus sentimentos sobre o amor?
A resposta é difícil. Mesmo os psicólogos estão divididos. Metade daqueles com quem conversei acham que os homens que assistem a muita pornografia acabam copiando o que eles veem: sexo fingido, orientado visualmente e o mais arriscado possível. Outros pensam que é apenas curiosidade: os homens entrariam em um site para ver uma mulher com três seios. Mas isso não quer dizer que queiram dormir com uma delas. Pessoalmente, não posso imaginar algum dos meus amigos participando de sexo a três ou grupal. É a coisa menos sensual que existe. Mesmo assim, há uma forte atração na imagem.
8% de todos os e-mails enviados ( 2,5 bilhões)
incluem conteúdo adulto**
Todos os homens se sentem um pouco ridículos usando pornografia. A imaginação das mulheres é mais rica do que a nossa e, suas fantasias, mais complexas e emocionantes. Por isso, um pedido: levem-nos com vocês. Para onde quer que suas mentes vão durante aquelas horas em que vocês pensam em sexo — sem precisar necessariamente assistir ao PornTube — vamos para lá juntos. Vendo daqui, parece que vocês estão se divertindo muito mais.
VOCÊ SE IMPORTA SE SEU PARCEIRO ASSISTIR A FILMES ERÓTICOS?
Amanda, 36, gerente de contabilidade, é casada com Dale, 38, humorista
NÃO “Eu ja assistia a pornografia quando era solteira e sugeri a Dale que víssemos juntos. Fico excitada quando vejo outras pessoas transando, especialmente enquanto Dale me acaricia. Preferimos os canais amadores às grandes produções. Existe uma coisa maliciosa nisso e acho que essa é a emoção. Como eu me sentiria se Dale assistisse sozinho? Bem, se isso alimenta sua imaginação, eu saio ganhando."
40% dos casais com problema culpam
a internet por isso*
Paula, 30, parteira, namora Mark, 32, cientista.
SIM “Consumir pornografia é a mesma coisa que trair. Comprometer-se com um relacionamento, para mim, exclui os outros. As imagens de filmes pornôs não têm a ver com o prazer feminino, mas com mulheres sendo obrigadas a realizar os desejos do homem. Eu me sentiria decepcionada se descobrisse que Mark assiste escondido, pois ele sabe que sou contra.”
COMO O VÍCIO EM PORNÔ QUASE ARRUINOU A VIDA DE UM CASAL
Emily, 35, empresária, está há dois anos com David, 33, engenheiro
A versão de Emily “Nunca fui uma consumidora habitual de pornografia. Não era contra assistir para apimentar a relação, mas não precisava disso. No início do namoro com Dave, o flagrei no meio da noite com as calças abaixadas, olhando para o computador. ‘Não consigo dormir, meu bem, isso me ajuda a relaxar’, explicou. Não entendi porque ele não me procurou em vez de ir para a internet, mas não disse nada. Aos poucos, nossas transas foram espaçando. Não falamos mais sobre o flagra, mas, certa noite, ao usar o computador dele, vi abrir na minha frente um site pornô com imagens radicais, como asfixia. No histórico, achei outros milhares de sites do gênero. Fui confrontá-lo e ele se defendeu dizendo que eu tinha violado sua privacidade. Não havia como negar que nossa vida sexual tinha mudado por causa da pornografia: se tornara mecanizada e sem emoção. Ele nunca queria que eu o masturbasse, a mão dele sempre tinha de segurar o pênis, mesmo durante o sexo oral. Eu me sentia como uma peça avulsa. Minha autoestima estava despedaçada e, com o tempo, as coisas só pioraram. Então, o deixei. Ele me pediu para voltar, reconhecendo seu problema e prometendo mudar. Amo Dave, por isso estou nos dando mais uma chance. Mas ainda não tenho certeza se um dia eu serei suficiente para ele.”
A versão de Dave “Minha obsessão por pornografia cresceu lentamente. Comecei com revistas ingênuas na adolescência. A maioria dos garotos fazia isso. Então, há cerca de oito anos, descobri que podia conseguir tanta pornografia quanto quisesse — e de graça. Eu a considerava diferente do sexo real, a usava para gozar e não para ter emoção verdadeira. Queria acreditar que isso não interferia na minha vida de outra forma, mas não era verdade. Durante anos, me masturbei no chuveiro todas as manhãs. Depois que comecei a assistir a pornografia na internet, descobri que não conseguia gozar se não tivesse imagens para ajudar. Não era o caso de preferir mulheres virtuais às reais. Eu sempre queria transar. Emily foi a primeira mulher que realmente amei. Depois do período inicial de excitação do namoro, porém, senti que preferia as coisas que via na tela. Quanto mais eu cedia às minhas fantasias, mais difícil era viver o momento com Emily. As imagens enchiam meu cérebro. Nós brigávamos por causa da pornografia, mas achava que Emily estava exagerando. Até que ela me deixou. E aí ficou dolorosamente claro que o problema era sério. Em vez de usar a pornografia só para relaxar, eu estava viciado. Pedi para voltar, prometi que mudaria e pretendia fazer isso. Cheguei a colocar filtros de proteção para crianças no computador. Mas, apesar de estar no mundo real com o sexo hoje, ainda sinto compulsão de ver pornografia quando estou ansioso ou contrariado. E luto contra isso da melhor maneira que posso.”
*Instituto de Pesquisa Nielsen Net/Reatings
**Internet Filter Review. Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

 
FONTE:http://revistamarieclaire.globo.com/Revista/Common/0,,EMI296699-17596,00-PORNOGRAFIA+AFETA+A+RELACAO.html

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